Acidentes Prediais: Riscos do descaso com a Manutenção

201603.30
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Estudo revela que 66% das prováveis causas e origens dos acidentes, em edificações com mais de 10 anos, são relacionados à deficiência com a manutenção, perda precoce de desempenho e deterioração acentuada.
Os noticiários alertam para diversos acidentes prediais, com vítimas fatais, nas edificações brasileiras. Muitas dessas tragédias ocorreram e ocorrem em edificações com mais de 30 anos, onde se verifica a baixa (ou nenhuma) qualidade nas atividades de manutenção. Habitualmente, proprietários de imóveis, usuários e gestores prediais negligenciam, ou mesmo ignoram, atividades preventivas, corretivas, reformas e outras que, por definição, deveriam alavancar uma melhor performance de desempenho nos sistemas e elementos construtivos. Estas negligências traduzem-se em prejuízo e, em alguns casos, em acidentes.
É de conhecimento técnico que os sistemas e elementos construtivos necessitam de atividades de manutenção ao longo de sua vida útil, para garantir níveis aceitáveis de desempenho e de segurança, originalmente previstos em projeto para atendimento às exigências dos usuários dessas edificações.
As normas de desempenho (ABNT NBR 15.575) parte 1 a 5, que vieram contribuir para a determinação de requisitos mínimos de desempenho às edificações, definem as exigências dos usuários como: “conjunto de necessidade do usuário do edifício habitacional a serem satisfeitas por este (e seus sistemas) de modo a cumprir com suas funções”.
Já a ABNT NBR 5.674, sobre manutenção de edificações, define as necessidades dos usuários como: “exigências de segurança, saúde, conforto, adequação ao uso e economia cujo atendimento é condição para a realização das atividades previstas em projeto”.
A câmara de inspeção predial do IBAPE-SP – Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia de São Paulo, atualmente, realiza estudo sobre acidentes ocorridos em edificações com mais de trinta anos, com base em dados de conhecimento comum, publicados pela imprensa. Conta com a ajuda co Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo e das informações cadastradas em seu banco de dados.
Nesse estudo, os acidentes prediais analisados ocorreram, exclusivamente, em edificações na sua fase de uso. Excluídos dessa análise, portanto, acidentes ocorridos na fase de obras e em edificações com menos de 10 anos.
Dos resultados iniciais obtidos, 66% das prováveis causas e origens dos acidentes são relacionados à deficiência com a manutenção, perda precoce de desempenho e deterioração acentuada. Apenas 34% dos acidentes possuem causa e origem relacionada aos chamados vícios construtivos ou, ainda, anomalias endógenas.
Desses resultados parciais, salientam-se, também aqueles relativos à distribuição dos acidentes quanto ao sistema construtivo colapsado, total ou parcialmente.
Nesse desdobramento, verifica-se que 57% dos acidentes relacionaram-se ao colapso parcial ou total do sistema estrutural. Consideradas as prováveis causas e origens desses eventos, constatou-se que a metade é causada por anomalias construtivas (erro de projeto ou de execução) e a outra metade por falhas de manutenção nessas estruturas e em outros sistemas que interferem no desempenho das mesmas ao longo de suas vidas úteis.
A ABNT NBR 6118 – Projeto de estrutura de concreto – procedimento, item 16.4 Durabilidade observa que: “para que a segurança verificada conforme descrito em 16.2.3 e 16.2.4 subsista ao longo de toda sua vida útil prevista para estrutura, é fundamental que sejam respeitadas as exigências de durabilidade que limitam a deterioração da estrutura provocada pela agressão do meio ambiente em que está inserida”.
A limitação sobre a deterioração estrutural, explicitada neste item da norma, relaciona-se, também, às atividades de manutenção periódicas necessárias à estrutura, dentre outros aspectos construtivos e de projeto que não são o caso em estudo.
Deste estudo, ainda, destaca-se que 11% dos acidentes relacionam-se aos desplacamentos de revestimentos de fachadas. A perda de aderência desses revestimentos antigos, na sua maioria, possui causas prováveis relacionadas às infiltrações de água e formações de trincas hidrotérmicas, perfeitamente evitáveis se fossem realizadas as atividades periódicas de manutenção nas fachadas, como lavagem e pintura, revisão de rejuntes de pastilhas e revestimentos cerâmicos, calafetação de rufos, respaldos e peitoris, dentre outras.
Em reforço ao exposto sobre o descaso e a negligência com a manutenção, salientam-se os resultados já apresentados no XIV Cobreap – Congresso Brasileiro de Avaliações e Perícias, sobre Inspeções Prediais executadas em 1.700.000,00m² de edificações comerciais. Estes resultados apontam para a perda de desempenho precoce de sistemas construtivos, a crescente necessidade de investimentos patrimoniais elevados para resgate dos padrões aceitáveis de desempenho, funcionalidade e segurança das edificações. Destas inspeções, a distribuição da incidência de falhas e anomalias em edificações comerciais quanto à origem foram: anomalias construtivas 15%; anomalias funcionais 7%; falhas 77%.
Quanto à criticidade geral, de acordo com a normativa do IBAPE-SP, a incidência de falhas e anomalias foi classificada como crítica em 55% dos casos e regulares em 45%.
Conforme apresentado no XIV Cobreap, 77% das deficiências constatadas em edificações inspecionadas relacionam-se a falhas de manutenção, e de todos os problemas verificados, 55% são classificados como críticos com impactos potenciais sobre a segurança, funcionalidade e operacionalidade desses sistemas construtivos, o que coloca em risco o usuário e a utilização.
Todos os dados apresentados remetem a uma conclusão: há meios de se diminuir o colapso e a deterioração precoce dos sistemas construtivos pela implementação de um sistema de manutenção predial, com a sua avaliação frequente por meio de inspeções prediais periódicas, que auxiliam no direcionamento de investimentos e nas adequações do próprio plano de manutenção. A manutenção periódica e planejada, que é de responsabilidade desses proprietários/usuários, além de mais barata que o reparo, evita outros tipos de percalços, como responsabilização criminal e civil.
Logo, não basta a indústria da construção civil investir na qualidade de projetos, sistemas executivos e tecnologia se os usuários, proprietários e gestores não se conscientizarem do papel fundamental que exercem sobre a performance de desempenho das edificações.
Engª Flávia Zoéga Andreatta Pujadas
Engª Marli Lanza Kalil
Adaptação: Engº Victor Maia, MSc.